Eu a amo como o oxigênio, cativo, que em cada alvéolo sustém-me a respiração; como se o próprio ar, secreto e fugitivo, fizesse de meu peito a sua habitação.
Eu a amo como a luz sobre os rochedos quando a maré se alteia no Arpoador; como o sol, penetrando antigos segredos, doura a pedra que enfrenta o mar em furor.
Eu a amo como a memória indelével do esplendor que habitava o seu sorriso, do branco de seus dentes — impossível lembrança de um perdido paraíso.
Eu a amo a ponto de ofertar a saúde, o sangue, a carne, o tempo que me resta, se acaso a vida, em súbita virtude, lhe fosse mais clemente, digna e justa.
Eu a amo com estes olhos de demente, que percorrem, devotos, a sua tez: cada centímetro, cada sinal silente, cada pinta que o corpo seu desfez
em constelações que minha vista inventa, cartografia íntima que não esqueço; geografia que a ausência me atormenta e que, quanto mais perco, mais conheço.
Eu a amarei até o fim dos meus dias, como o réu que, encerrado em sua cela, conta as horas, as sombras, as agonias, sabendo que a sentença o espera à vela.
Condenado por crime inominável, sem indulto, clemência ou salvação, levo este amor — perpétuo e inapelável — como algema cerrada ao coração.
Eu a amo como as últimas palavras que um moribundo entrega antes de partir; como quem, entre lágrimas e lavras, ainda encontra um coração para iludir.
E se ao fim nada houver senão o escuro, se a morte me despir de voz e nome, restará, contra o mármore do futuro, esta inscrição que nem o tempo come:
Eu a amo.