Brasa

Brasa que abraça o meu ser,
brasa que o tempo não apaga,
se a dura fortuna me afaga
com tudo quanto faz sofrer.

Brasa que abraça e que abrasa,
em secreto e antigo ardor,
fazendo da própria dor
morada onde a esperança casa.

Brota, ó brasa, e faz-te chama!
Que um novo esperançar
já principia a murmurar
na alma que outra vez se inflama.

Escuta.

Não perturbes o instante.

Há um lume ainda pequeno
levantando-se das cinzas,
como quem, vencido outrora,
ousasse afrontar a Fortuna.

E a brasa faz-se chama,
e a chama faz-se incêndio,
e o incêndio toma o peito
que por morto se julgava.

Que estranho ardor é este
que quanto mais me consome
mais restitui meu nome
àquele que em mim resiste?

Que fogo é este, afinal,
que não me mata ao arder,
mas me acrescenta ao ser
quanto me roubou o mal?

Talvez lhe chamasse Alegria
aquele sábio Espinosa:
não a ventura enganosa
que hoje vem e amanhã esfria,

mas o crescer da potência,
o ser que a si se acrescenta,
a força que se alimenta
da própria perseverança.

Eis, pois, a boa-nova:

onde pensei haver cinza,
havia lume escondido;
onde me julguei vencido,
a vida aguardava ensejo.

Brasa que abraça meu ser,
brasa que abrasa e não mata:

quanto mais em mim ardes,
mais me ensinas a viver.