Tantos planos, tantas surpresas,
tantos gestos que inventei,
para enfeitar tuas certezas
com tudo aquilo que sonhei.
Ainda lembro — e isso dói —
mesmo tua voz se dissolvendo;
há tanta coisa que se foi,
e tanta em mim permanecendo.
Queria estar ao teu lado,
partilhar contigo este dia,
ver teu sorriso iluminado
e fazer dele moradia.
Talvez jamais cheguem a ti
estes versos imperfeitos;
mas tudo aquilo que não vivi
ainda transborda do meu peito.
Por isso deixo, nestas linhas,
meu carinho e gratidão;
entre tantas vidas e caminhos,
tu atravessaste o coração.
Foste cometa no horizonte,
clarão cortando a escuridão;
mudaste o curso, o rumo, a fonte,
a órbita da minha razão.
E não, não estou melhor sem ti,
nem vou fingir que estou inteiro;
apenas sigo — sobrevivi —
carregando a falta por companheiro.
Aprendo agora, lentamente,
a conviver com a distância;
mas tua ausência, tão presente,
ainda governa cada instância.
Num universo paralelo,
talvez o acaso fosse amigo;
talvez eu ainda fosse aquele
que acordava junto contigo.
Talvez palavras como estas
não fossem lançadas ao vazio;
seriam cartas, seriam festas,
seriam fogo contra o frio.
Aqui, porém, tornam-se marcas,
riscos gravados sobre a pele;
como quem fecha antigas arcas
temendo que o tempo tudo leve.
Quero tatuá-las na memória,
na derme, no osso, no olhar,
para salvar da nossa história
aquilo que insiste em se apagar.
Porque a cada novo segundo
algo teu começa a desaparecer;
e eu atravesso este absurdo
de te esquecer sem te esquecer.
O rosto perde algum contorno,
a voz se afasta devagar;
mas há lembranças cujo retorno
nem mesmo o tempo pode evitar.
Se um dia tudo se desfizer,
teu riso, teu cheiro, tua imagem,
que ao menos reste, até morrer,
o amor que sobrevive à viagem.
E se estas linhas nunca chegarem,
se forem só silêncio e distância,
que ao menos nelas permaneçam
meu carinho, minha lembrança.
Feliz aniversário.
Que a vida te seja gentil,
que o mundo te trate com leveza;
e, mesmo distante mil por mil,
eu ainda te desejo beleza.