Escuta o silêncio ensurdecedor
que rói as paredes da minha mente;
nelas teu vulto permanece ausente,
presença feita de ausência e dor.
Habitas o bolor do pensamento,
parasita voraz da minha memória;
e eu remo, náufrago, a mesma história,
preso às ferragens desse sentimento.
E ali sou feliz. Terrivelmente.
Feliz porque recordo o que perdi;
feliz porque, lembrando, ainda te vi;
infeliz por lembrar tão claramente.
Eu vejo o teu corpo. O teu cabelo.
Teu cheiro impregnado no meu quarto.
A brasa do cigarro — rubro parto
de um fogo condenado ao pesadelo.
A fumaça subia lentamente,
torcendo-se no ar, quase faceira;
e teu olhar, perdido, à sua maneira,
fitava o nada, indiferentemente.
Lá fora, a noite ardia em claridade.
As luzes do Centro Político, acesas,
ignoravam nossas incertezas,
nossa pequena e breve eternidade.
Quem poderia, então, naquela noite,
prever que aquele instante morreria?
Quem poderia ouvir que já rangia
sobre o meu dorso o ferro deste açoite?
Eu não.
Eu, néscio!
Eu, ridículo!
Eu,
que fiz do teu sorriso uma promessa
e imaginei que em tua carne impressa
ardia a mesma febre que ardeu na minha.
Julguei que me amarias.
Que ironia!
Confundi teu carinho com paixão;
dei corpo, eternidade e coração
ao breve acaso que nos reunia.
Agora pago.
O orgulho fez a cela;
a estupidez ergueu cada parede;
e a boca que por tua boca tem sede
morde as próprias palavras atrás dela.
Mereço a pena.
Mereço o castigo.
Fui carrasco de mim, fui meu perigo;
ergui com minhas mãos esta prisão
e condenei à morte o coração
que só queria envelhecer contigo.
E choro.
Não como choram os amantes
nos versos perfumados de outros tempos.
Choro matéria.
Sal.
Restos.
Fragmentos.
Detritos de momentos agonizantes.
A lágrima que escorre pelo rosto
não lava o que ficou dentro de mim;
apenas testemunha que este fim
tem gosto de ferrugem e desgosto.
Saudade!
Que palavra miserável
para nomear o verme que me come!
Tão pouca voz para carregar teu nome,
tão frágil para o peso do incurável.
Porque não sinto apenas tua ausência.
Tenho saudade — e esta é minha ferida —
do homem que eu fui naquela vida,
antes de apodrecer nesta consciência.
Tenho saudade do meu próprio riso.
Do homem que dormia sem temer.
Do homem que ainda ousava amanhecer
sem transformar lembrança em paraíso.
E não aceito!
Não aceito, não.
Como pude ser tão estupidamente
cego, tão néscio, tão inconsequente,
e confundir desejo e coração?
Repito às paredes:
— Não me amava.
Repito ao espelho:
— Nunca me pertenceu.
Mas este coração, que não aprendeu,
continua esperando pela amada.
Maldito coração!
Músculo insano,
analfabeto, estúpido, insistente,
que sabe que perdeu definitivamente
e espera como espera um cão humano.
Todos já sabem quanto estou sofrendo.
Está nos olhos.
Na voz.
No andar.
Não há disfarce capaz de ocultar
um homem que, vivendo, está morrendo.
Por isso ando à noite.
Ando.
Ando.
Como se a rua me oferecesse cura,
como se cada passo na amargura
pudesse sepultar o teu comando.
Mas quanto mais caminho, mais regresso.
Toda avenida desemboca em ti.
Em cada rosto busco o que perdi.
Em cada esquina encontro o teu avesso.
Toda fumaça traz teu cigarro.
Toda noite traz aquela noite.
Toda lembrança empunha o seu açoite.
Toda distância aumenta o meu desterro.
E aquelas luzes continuam acesas.
O Centro Político ainda resplandece.
A cidade prossegue. Amanhece.
Só eu permaneço entre as incertezas.
E escuto.
Escuto o silêncio.
O mesmo silêncio ensurdecedor
que rói as paredes da minha mente
e faz de ti, embora estando ausente,
a mais concreta forma da minha dor.
Depois de tanta noite e sofrimento,
de tanta metafísica e agonia,
de procurar na morte da alegria
alguma explicação ao meu tormento;
depois do orgulho, da paixão, do medo,
da carne, do bolor, da solidão,
descubro que este estúpido coração
guardava um miserável e simples segredo:
não quero eternidade.
Nem salvação.
Não quero que desfaças o passado,
nem que retornes para o meu lado,
nem que ressuscites a paixão.
Não peço amor.
Não peço explicação.
Não quero o impossível.
Nem o futuro.
Só quero, por um segundo, estar seguro
dentro do teu abraço.
E então —
silêncio.
