Seguir? E dizem: fácil. Fácil assim?
Se a alma ainda soluça em segredo,
se o riso, que morava dentro em mim,
fugiu deixando a sombra e o seu medo.
Invento mil maneiras de cair,
saboto cada passo, cada estrada;
pois quanto mais me esforço por seguir,
mais volto à tua porta abandonada.
De noite, nos delírios, você vem:
arrependida, pálida, perdida,
dizendo que entendeu, tarde também,
que em meu peito encontrava a sua vida.
Que eu era cais no caos da correnteza,
um porto posto em meio à tempestade;
que confundiu cuidado com fraqueza,
e liberdade, enfim, com liberdade.
Tic-tac.
Mais uma hora morde a madrugada.
Tic-tac.
Meu sono some. O silêncio me sentencia.
Na cama, cada dobra diz teu nome;
na noite, a nossa ausência principia.
Memória murmura.
Meu medo mastiga
os mínimos restos
daquilo que fomos.
O quase.
Ah, o quase...
Esse cadáver que jamais termina,
essa esperança estúpida e insistente,
essa ferida funda que ilumina
o que morreu sem morrer plenamente.
Porque há perdas que enterram quem ficou
e amores que, embora vivos, se despedem;
há beijos que o relógio não matou
e braços que ainda chamam, mas não cedem.
Seguir?
Seguirei.
Se o tempo empurra, eu sigo a correnteza,
com cada cicatriz sob a camisa;
carrego nos meus ombros a certeza
de que até o amor, às vezes, cicatriza.
Mas aquela alegria — clara e inteira —,
que ria sem saber da despedida,
ficou perdida à margem da fronteira
que separou teu corpo da minha vida.
Seguirei.
Sim.
Mesmo sem saber
se sigo por coragem
ou porque não há
mais onde permanecer.
E aquela minha alegria genuína,
que antes de ti sabia amanhecer,
talvez ainda exista em alguma esquina...
mas desaprendeu
o caminho
de me reconhecer.