Carta Paulina

Mais um sábado.

Quatro horas da manhã.

E eu ainda escrevo,
como escrevem os condenados
quando já não esperam indulto,
mas necessitam deixar,
na parede úmida da cela,
a prova de que estiveram vivos.

Talvez nunca leias.

Melhor assim.

Há palavras que chegam tarde demais
para salvar qualquer coisa,
mas chegam ainda a tempo
de dizer a verdade.

E a minha é esta:

eu te amei errado.

Não porque fosse falso.
Não porque fosse pouco.

Talvez porque tenha sido demais
naquilo que amor nenhum deveria ser:

medo.

Medo de perder.
Medo de faltar.
Medo de não bastar.

E, com medo de não bastar,
quis ser tudo.

Quis ser teto
quando a chuva viesse.

Quis ser mesa
quando houvesse fome.

Quis ser bolso
quando faltasse o dinheiro.

Quis ser médico,
remédio,
abrigo,
carro,
casa,
ombro,
escuta.

Quis ser chocolate
nos teus dias amargos.

Quis vencer o sono
para permanecer ao teu lado
enquanto teus olhos atravessavam
as terras impossíveis
do Senhor dos Anéis.

Quis comprar teu cigarro
odiando cada tragada,
porque eu sabia que aquela fumaça,
tão bonita entre teus dedos,
também conspirava
contra tua pele,
teus dentes,
teu corpo,

contra o tempo
que eu ingenuamente imaginava
que teríamos.

Eis meu ridículo:

eu tinha ciúmes até do tempo.

Queria envelhecer contigo
antes mesmo de saber
se desejavas amanhecer comigo.

Talvez aí tenha começado
a minha ruína.

Confundi cuidar
com tornar-me indispensável.

Confundi presença
com permanência.

Confundi alguns instantes de felicidade
com uma promessa de eternidade.

E, sobretudo,

confundi o meu amor
com o teu.

Perdoa-me por isso.

Não pelo que senti.

Do que senti
não me arrependo.

Arrependo-me de ter colocado
sobre os teus ombros
o peso monstruoso
de ser responsável
pela felicidade de outro ser humano.

Nenhuma mulher deveria carregar
um fardo assim.

Nem mesmo aquela
que um homem ama.

Foram noventa e quatro dias.

Noventa e quatro.

Que unidade miserável
para medir uma eternidade.

O calendário dirá:
três meses.

Meu corpo dirá outra coisa.

Porque há pessoas
com quem atravessamos vinte anos
sem que nos atravessem,

e há quem permaneça conosco
por algumas luas

e deixe seus fósseis
na medula.

Tu deixaste.

Ainda encontro tua existência
nas pequenas coisas.

Uma roupa esquecida.

O shampoo.

O creme.

O perfume.

Ah, o perfume...

Há uma crueldade particular
nos perfumes:

o corpo parte
e eles permanecem,

pequenos fantasmas químicos
provando ao cérebro
que alguém esteve ali.

Às vezes penso
que teu cheiro sobreviverá a nós dois.

E existe aquele quarto.

Mudei de casa
e havia um quarto.

Hoje compreendo o absurdo:

eu construía espaço para ti
num futuro
em que talvez nunca tenhas
pretendido morar.

Mas eu pretendia.

Meu crime sempre foi esse:

eu pretendia.

Pretendia sexta-feira.
Pretendia sábado.
Pretendia almoço.
Pretendia filme.
Pretendia viagem.
Pretendia manhã.

Pretendia futuro.

E talvez tu quisesses apenas
alguns instantes.

Não te condeno.

O instante também é uma forma
legítima de existir.

Fui eu quem tentou
obrigá-lo a tornar-se eternidade.

E como fui néscio!

Como fui soberbamente néscio
ao imaginar que a força
com que meu coração batia
pudesse servir de prova
do que acontecia no teu.

Coração não é argumento.

Amor não é plebiscito.

Ninguém ama alguém
porque recebeu o suficiente.

E nenhuma soma de gestos,
cuidados,
noites,
dinheiro,
lágrimas
ou quilômetros

produz o direito
de ser amado.

Demorei para compreender.

Eu dizia:

— quero cuidar de você.

Mas talvez meu coração dissesse:

— por favor, não vá embora.

E foste.

Agora as noites ficaram enormes.

Caminho por elas
como quem procura cansar o corpo
para silenciar a memória.

Não funciona.

Meus pés chegam exaustos.

A memória, não.

Ela continua andando.

Passa pelos lugares.
Reabre conversas.
Reconstrói noites.
Acende cigarros extintos.
Recompõe teu rosto.

E, sobretudo,

repete teu sorriso.

Maldito sorriso.

Se soubesses
quantas vezes ele ainda acontece
dentro da minha cabeça,

talvez tivesses piedade
deste pobre animal
chamado lembrança.

Mas não quero tua piedade.

Nem quero convencer-te.

Esta talvez seja
a primeira coisa verdadeiramente amorosa
que consigo fazer:

não te pedir nada.

Nem retorno.

Nem resposta.

Nem explicação.

Nem que sintas falta.

Nem mesmo que guardes
uma boa lembrança de mim.

Quero apenas reconhecer:

eu quis.

Meu Deus,

como eu quis.

Quis estar.

Quis ficar.

Quis cuidar.

Quis fazer rir.

Quis ouvir.

Quis oferecer.

Quis construir.

Quis transformar aqueles
noventa e quatro dias

em noventa e quatro anos.

Não consegui.

E há derrotas
que não tornam inútil
a batalha.

Valeu a pena?

Sim.

Mesmo agora.

Mesmo daqui.

Mesmo com este silêncio
que me rói as paredes da mente.

Valeu.

Porque durante um fragmento mínimo
da história deste universo,

entre bilhões de pessoas,
cidades,
acasos
e impossibilidades,

eu encontrei você.

E fui feliz.

Talvez essa seja
a frase mais dolorosa
que já escrevi:

eu fui feliz.

Fui.

E tenho saudade não apenas de ti,

mas do homem
que existia quando estavas comigo.

Tenho saudade do meu riso.

Da espera boa.

Da porta abrindo.

Da tua voz.

Do teu cheiro.

Da fumaça do cigarro.

Da tua presença desarrumando
a geometria da casa.

Tenho saudade até
das coisas que me irritavam,

porque a ausência possui
esta perversidade:

transforma defeitos
em relíquias.

Hoje não sei
se algum dia pensarás em mim.

Talvez não.

Talvez meu nome se desgaste
até não provocar coisa alguma.

Talvez um dia encontres alguém
que compreenda melhor
o modo como desejas ser amada.

Espero que sim.

Que ele não tente salvar-te.

Que não tente completar-te.

Que não transforme cuidado em dívida
nem medo em promessa.

Que simplesmente caminhe contigo.

E que tu sejas feliz.

Esta frase ainda dói.

Mas escrevo:

que tu sejas feliz.

Mesmo onde eu não estiver.

Porque finalmente compreendo
que amar alguém talvez comece
justamente onde termina
a pretensão de possuí-lo.

Quanto a mim,

ficarei algum tempo
recolhendo os escombros.

Há muito de ti
espalhado por aqui.

Nas coisas.

Nos lugares.

Em mim.

Um dia o perfume acabará.

O shampoo acabará.

As roupas irão embora.

A fumaça desaparecerá.

O quarto encontrará outra função.

Os noventa e quatro dias
serão apenas datas antigas
num calendário que ninguém consulta.

E talvez até teu rosto
comece a perder contornos
na maquinaria imperfeita
da minha memória.

É isso que mais temo:

não sofrer.

Esquecer.

Porque enquanto dói,
alguma coisa tua ainda vive aqui.

Mas sei que também isso passará.

Tudo passa.

A carne.

O desejo.

A memória.

Nós.

Só há uma coisa
que não quero permitir
que o tempo falsifique:

eu te amei.

Imperfeitamente.

Ansiosamente.

Desajeitadamente.

Às vezes excessivamente.

Mas te amei
com tudo aquilo
que naquele momento
eu sabia ser.

E se pudesse voltar
àquela primeira noite,

não levaria dinheiro.

Não levaria promessas.

Não levaria planos.

Não ofereceria casa,
carro,
futuro
ou salvação.

Levaria apenas
este homem imperfeito,

sentaria ao teu lado,

veria a fumaça subir
do teu cigarro,

olharia contigo
as luzes da cidade,

e deixaria o instante
ser apenas instante.

Talvez segurasse tua mão.

Talvez nem isso.

E, antes que a noite terminasse,
eu te diria somente:

— Não me deves nada.

Depois sorriria.

Porque hoje sei
o que não sabia
naqueles noventa e quatro dias:

amar não é fazer alguém ficar.

Amar é poder dizer
que a passagem dessa pessoa
mudou alguma coisa em nós,

mesmo quando ela parte.

E tu mudaste.

Por isso,

se esta for realmente
a última carta,

não quero terminá-la
com cobrança.

Nem com culpa.

Nem com promessa.

Quero terminá-la
como deveria ter começado:

obrigado.

Obrigado
pelos noventa e quatro dias.

Obrigado pelo teu riso.

Pelo teu cheiro.

Pelas noites.

Pelas pequenas eternidades
que inventei ao teu lado.

E por teres me ensinado,
da maneira mais dolorosa possível,

que ninguém pode ser
a morada de alguém
antes de aprender
a habitar a si mesmo.

Eu quis estar.

Eu quis agradar.

Eu quis ficar.

Eu quis...

E talvez toda declaração de amor
seja apenas uma longa tentativa
de esconder, sob palavras bonitas,
uma verdade brutalmente simples:

entre todas as coisas
que eu poderia desejar agora,

não quero possuir-te.

Não quero convencer-te.

Não quero vencer.

Queria apenas,

uma última vez,

encostar a cabeça em teu ombro,

sentir por um instante
aquele perfume que a memória
se recusa a esquecer,

e receber de ti

sem promessa,
sem futuro,
sem dívida,

um abraço.

Só um abraço.

E depois,

se for preciso,

deixar-te ir.