Eu te olho no espelho, reumatoide ser, de sulcos que seguram as órbitas.
Vejo a inflamação, os dentes áureos, a íris prostrada no passado, no que poderia ter sido.
Quantas ilusões te custaram? Quantas decepções te golpearam? E ainda continuas, de cócoras, à espera da próxima criação.
Olha teus passos, na areia da desilusão, neste deserto escaldante e gélido. Quem ainda se lembra de ti, criatura repugnante?
Diga-me: ainda há tempo? Diga-me: ainda há tempo para sepultar outro amor, coveiro de sentimentos?
Sentirás o torpor? O frio no ventre? Borboletas no estômago? Sentir-te-ás vivo?
Você, José, não vive sem ninguém. Deixa uma desconhecida consumir-te, sinta-se usado, e depois construa a prisão que desminta a narrativa de que, mais uma vez, se apaixonou.
Vacine-se? Não. Nunca farás isso. É essa febre que te move.
Não és o luxo, não és o conforto, não és a rotina.
Teu regime de verdade é criar, outra vez, um novo amor, que morrerá antes de completar cem dias.