Não nasci para ser amado.
Nasci, talvez, para servir;
para entregar-me, resignado,
e, mesmo vendo, consentir.
Pois sei quando me usam. Sei.
Conheço o gesto e a intenção;
cada silêncio que guardei,
cada ensaiada dissimulação.
Fiz-me de ingênuo tantas vezes,
vesti de tolo a própria face;
mas vi, por trás das gentilezas,
o interesse em cada enlace.
Eu soube sempre cada passo,
cada palavra calculada,
cada sorriso em falso traço,
cada promessa disfarçada.
Não confundais minha bondade
com cegueira ou submissão:
há quem conheça toda a verdade
e ainda estenda a própria mão.
Nasci para ser usado? Seja.
Fazei de mim vosso proveito.
Levai aquilo que deseja
quem toma tudo por direito.
Agradeço a preferência.
Servi-vos bem? Então, perfeito.
Só não façais da minha ciência
um monumento ao vosso feito.
Porque de tudo eu já sabia:
do jogo, do ardil, da direção.
Eu apenas vos permitia
pensar que tínheis o controle em vossas mãos.