Elegia à Deusa Ausente

Ó deusa, que suplício me consome!
Que acerba dor devora o peito meu!
Partiste... e, desde então, somente o nome
persiste, como um templo que não ardeu.

Sete dias percorri, qual peregrino,
buscando um rastro da celeste imagem;
mas tudo, ao meu redor, fez-se destino
de cinza, ausência, sombra e vã miragem.

Meu peito, em mil fragmentos repartido,
cuidou poder banir tua memória;
porém, vencido, trêmulo, rendido,
fez de teu vulto a própria trajetória.

Não houve aurora sem teu vulto amado;
não houve noite sem teu doce aceno;
nem um instante, breve ou dilatado,
que não trouxesse teu semblante ameno.

Ó minha deusa, se te causei ferida,
foi por querer, em mísera loucura,
conter a luz que, livre e desprendida,
jamais se curva à mão que a desfigura.

Tarde aprendi, na escola da tristeza,
o que o amor silencioso nos ensina:
não se aprisiona o voo da beleza,
nem se algema a vontade feminina.

Resta-me, pois, qual mármore esquecido,
guardar teu nome em muda reverência;
pois vive mais quem ama, embora ferido,
do que quem vence à custa da ausência.