Confessionário

 Eis-me ainda vivente e alvissareiro,

Por negros olhos que em ventura amei;

Neles achei meu céu mais verdadeiro,

Neles vivi, por eles me entreguei.


Foi-se. E há de apagá-lo a longa idade,

Se pode o tempo aquilo que não quer;

Contra meu peito e contra a minha vontade,

Hei de esquecê-lo — se esquecer puder.


Prosseguirei, ao fado obediente,

Por senda incerta, em solitária lida;

Levando a ausência, sombra permanente,

Como quem leva a morte estando em vida.


Se me coubera ao tempo dar regresso,

Talvez não atendesse àquela voz;

Naquele domingo, princípio do excesso,

Que fez de um só destino o de nós dois.


Talvez mantivesse a guarda levantada,

E ao peito não lhe desse habitação;

Pois fiz de minha alma a sua morada

E dei-lhe, incauto, as chaves da razão.


Talvez houvesse pejo no meu zelo,

Talvez calasse o ardor desesperado;

Talvez, temendo a desventura, ao vê-lo,

Amara menos para ser poupado.


Mas que quimera é esta que me assalta,

De pretender tornar o tempo atrás?

Se a ausência dói, é porque ainda me falta

Aquilo que, perdido, vive mais.


Talvez, talvez, talvez... Vã fantasia!

Que pode o “se” contra o que já passou?

Se me tornasse o fado àquele dia,

Faria tudo quanto então passou.


Eis meu pecado, enfim, neste sacrário:

Não foi amar, nem foi amar demais;

Foi fazer de outro ser meu confessionário

E crer eternos olhos tão mortais.