Ó, Musa.
Se soubesses
o quanto te quero,
talvez o inverno
aprendesse, enfim,
a florescer.
És o vendaval de ar morno
que atravessa
uma manhã natimorta de julho;
o improvável
que devolve pulso
ao que nasceu condenado ao silêncio.
Dize-me:
Consegues ver
a parte de mim
que nem os espelhos alcançam?
Consegues ouvir
a calma aparente
que esconde o tumulto
de todos os mares?
Porque diante de ti
desaprendo a idade,
troco a gravidade
pelas molecagens
de um menino
que ainda acredita
que o mundo cabe
na palma da mão.
Sou marinheiro,
cego de mapas,
embarcado numa caravela
que desconhece o retorno.
E tu és
o continente
que nenhuma bússola ousou desenhar.
Teu perfume
não atravessa apenas o ar:
altera a arquitetura da memória.
Teus cabelos,
negros como a primeira noite do universo,
ensinam o olfato
a desejar sabores
que jamais existiram.
E tua pele...
Ah, tua pele.
Não é pele!
É uma escritura antiga
que Deus esqueceu aberta
sobre o corpo da Terra,
onde cada centímetro
é um idioma
que minha boca
ainda não aprendeu a rezar.
Percorro-te
como quem procura
o próprio nome
num manuscrito perdido.
E sempre encontro
um país novo.
Uma montanha
que não estava ali.
Um rio
que muda de curso
apenas porque meus dedos
o tocaram.
És cartografia infinita.
És mina,
ouro,
abismo,
e a fome
de quem descobre
que nenhuma riqueza
é comparável
ao milagre de permanecer
dentro de um abraço.
Não sei
o que será de mim.
Se restarão somente
estas lembranças
que o tempo polirá
até parecerem mentira.
Se sobreviverão
as inseguranças,
as manias,
o medo infantil
de acordar
e descobrir
que tudo não passou
de um sonho
com excesso de luz.
Porque a minha rotina
já não obedece aos relógios.
Ela responde
à gravidade
do teu querer.
Quando me olhas,
amanhece.
Quando te afastas,
o mundo desaprende
a pronunciar meu nome.
Ó, ninfa.
Ó, deusa.
Ó, mulher.
Chamaram-te Nefertiti,
porque não conheciam
teu verdadeiro nome.
Fundam continentes.
E tu,
sem saber,
fundaste o meu.
