Ó Deus...

 Ó Deus, quem sou? Que espectro me consome?

Que nome resta ao nome que perdi?

Em que erma pedra o meu destino some?

Que rastro deixo, se jamais vivi?


Ó Deus...


Minha alma, exausta de si mesma, arrasta

o féretro das horas pelo chão;

cada alvorada, em vez de luz, me basta

qual lâmina cravada no pulmão.


Sou náufrago sem mar, feto do Nada,

natimorto do próprio amanhecer;

Leviatã que, à fome condenada,

devora os sonhos para não morrer.


Caminho. As unhas rasgam o carmim

das paredes da noite apodrecida;

procuro, entre os escombros de mim,

o eco de uma infância ainda viva.


Ó Deus... quem sou?


A noite, inexorável, há de vir.

E eu, moribundo à porta da memória,

farei da solidão o meu dormir,

réu sem sentença, prisioneiro da história.


Nesta cela onde o silêncio se derrama,

tento, em desespero, saciar o abismo;

mas quanto mais alimento a fria chama,

mais se alimenta dela o meu niilismo.


Ó Deus!


Onde se foi o brilho do meu olhar?

Em que sepulcro dormem minhas crenças?

Quem sepultou meu ímpeto de amar

sob a caliça estéril das ausências?


Onde repousam as quimeras vãs

que anestesiavam minha carne aflita?

Quem me roubou as doces manhãs

e deixou só a sombra infinita?


Se ainda em mim respira algum clarão,

mesmo enfermo, mínimo, indeciso,

concede apenas isto ao coração:


que eu não me torne o túmulo

de mim mesmo.