Prodigioso verme, que róis, paciente, a medula do meu pensamento, vem. Instala-te em minha fronte e alimenta-te do odor sombrio da guilhotina onde tombam os meus dias.
Nega-me. Rejeita-me. Talvez seja esta a única herança que mereço: a de servir, dócil, como o mais fiel dos teus capachos.
E mais um dia se dissolve, vertendo-se no abismo de noventa dias intermináveis, enquanto me embriago, não de vinho, mas da essência que deixaste como perfume esquecido nas paredes da memória.
Ó imprudente beija-flor, que pousas apenas o tempo suficiente para condenar a flor à eterna espera.
Deixa-me de cócoras, curvado como penitente diante do altar do teu silêncio, aguardando tua vontade, teu desejo, teu menor gesto, como quem espera que um deus distraído se recorde de sua criatura.
E aqui permaneço.
Não por esperança.
Mas porque até o desespero aprendeu o teu nome.
Espero apenas o improvável milagre do teu sorriso —
esse breve clarão capaz de absolver, num único instante, todos os séculos da minha condenação.