Detenho em ti meu longo e mudo olhar,
como quem busca a origem da beleza;
e invejo a luz que aprende a repousar
nas tuas pupilas cheias de clareza.
Que estranho dom governa o teu pensar!
Que alquimia secreta, rara e pura,
condensa o mundo em doce arquitetura
e o faz em teu silêncio germinar.
Quem dera ser, por breve e só momento,
um simples nervo do teu pensamento,
um tênue impulso em teu viver profundo;
seguir a rota oculta da retina,
onde a visão, serena e peregrina,
transforma em sonho a aspereza do mundo.
Ó musa dos cabelos cor de noite,
e desse leve sulco em teu queixo,
há qualquer coisa em teu singelo porte
que prende a alma como eterno enleio.
Era domingo. O sol, sem majestade,
morria lento na extensão do dia;
e havia, na quietude da tardinha,
a paz antiga de uma catedral.
Sentaste à luz. Com calma delicada,
lixavas as unhas, absorta e bela;
depois, entre os esmaltes, escolheste
o rubro Scarlet, vivo como a aurora.
E vi teus dedos, pétalas de fogo,
vestirem-se de escarlate luminoso;
parecia que abril, num gesto apenas,
pintava rosas sobre o mármore alvo.
Então chegaste perto, sem alarde;
beijaste-me a fronte com ternura,
e tua mão desceu por minha perna
como quem benze a febre de uma alma.
Quis alcançar-te a boca...
Mas o destino,
que às vezes ri da humana presunção,
furtou-me o passo; e fui vencido ao chão,
mais pelo amor que pela gravidade.
Não riste.
Vi teus olhos, de súbito, anuviados;
o susto empalideceu-te o doce rosto,
como se o mundo, em um instante breve,
houvesse vacilado sob teus pés.
Levantei-me sem dor; porém guardava
no peito a prova mais serena e rara:
quem se assusta com a queda de outro ser
já o sustenta muito antes da queda.
E a tarde foi descendo sobre as águas,
levando o ouro das últimas claridades;
eu permaneci, quieto e embriagado,
não pelo vinho, nem pelo repouso,
mas pela graça de haver dividido
um simples domingo contigo.
Ó deusa das margens do Paraguai,
se algum poema sobreviver ao tempo,
que leve, entre seus versos, teu nome
como o rio leva a luz do firmamento.
