Calmarias Oblíquas

 És minha paz. Percebes, olhos oblíquos?

Ainda que não queiras percebê-lo,

ainda que me relegues, por descuido,

ao breve ofício de entreter teu zelo,


és a calmaria soberana

que, após tormentas, viu Fernão de Magalhães

rasgar o vasto e silencioso oceano

e dar-lhe o nome de Pacífico, afinal.


Aquietas meus receios mais antigos,

fortaleces o labor dos meus dias,

fazes florir, nos campos do impossível,

sementes tênues de esperança tardia.


E eu, qual navegador de mares nunca

traçados pelos mapas dos mortais,

singro teu corpo líquido de enigmas,

ora sereno, ora feroz demais.


Conheço bem o risco da viagem:

os mares calmos ocultam vendavais;

sei que o destino muda sem aviso

e os céus mais claros escondem temporais.


Porém persigo o aroma de tua pele,

a breve luz de cada mensagem tua,

as longas vigílias que me deixas,

enquanto a madrugada continua.


Sou capitão da nau que me pertence,

governo velas, bússola e timão;

mas é nas águas tuas — tão profundas,

tão misteriosas quanto a solidão —


que desejo lançar minha âncora,

quando enfim cessar o navegar:

encontrar em teu peito um porto antigo

onde a alma possa, enfim, descansar.