Já não me reconheço.
Vi-me sorrindo.
Como pode sorrir
uma criatura maldita,
condenada a arrastar
os próprios ossos pela noite?
Aqueles olhos negros,
mais profundos que o silêncio
das águas onde repousam os afogados,
tocaram-me a existência
com a delicadeza
de quem desperta um morto.
Aquele aroma de fruta-do-lobo,
agreste, doce e selvagem,
rompeu a penumbra
como um anúncio de primavera
num jardim abandonado.
Entre a fumaça
que se enrosca em teus passos,
vejo-me repousar
em teus receios e desejos,
como quem encontra abrigo
no coração da tempestade.
Entre os goles da bebida ardente,
queimando a garganta e a memória,
vejo-me perder
a velha solidão dos náufragos
e aceitar, enfim,
a companhia do destino.
Ela, tão ela,
que nem os deuses ousariam repetir.
Ela,
que, qual Caronte ao contrário,
abandonou a própria barca
e atravessou os rios da noite
para resgatar meu corpo moribundo
das margens do esquecimento.
Tomou-me pela mão
quando eu já pertencia às sombras.
Chamou-me pelo nome
quando nem eu o recordava.
E se vierem as tempestades,
com seus relâmpagos famintos
e suas bocas de vento,
é em sua pele
que encontrarei abrigo.
E se vierem as noites mais escuras,
quando a esperança vacilar
como chama ao relento,
será no clarão
de seus alvos dentes
que minhas angústias,
uma a uma,
deporão as armas.
Pois houve um tempo
em que eu caminhava morto.
Agora caminho contigo.
E eis o milagre
que ainda não compreendo:
já não me reconheço,
porque voltei a viver.
