Meu amor, talvez amanhã,
quando morrer a luz do dia,
já não busque a mão da minha
a tua mão que me sustinha.
Talvez meu olhar, peregrino,
já não procure, manso abrigo,
no doce céu dos olhos teus,
meu porto, minha paz, meus rios.
Talvez a flor de lobo agreste,
que o vento do Pantanal beija,
já não derrame em tua pele
o mesmo aroma que me enleia.
Mas deixo em versos vacilantes,
como quem reza à beira-mar,
a memória desses instantes
que nem a morte há de apagar.
Porque tu foste, ó doce estrela,
que abriu clarões na noite escura;
tu foste a página mais bela
do livro breve da ventura.
Musa das barrancas morenas
do velho Paraguai bravio,
levaste às minhas veias cheias
primaveras sobre o estio.
E se amanhã, por triste fado,
a vida apartar nossos caminhos,
direi, sem medo, ao passado:
— Entre os meus sonhos e espinhos,
teu nome ficou consagrado
como o mais alto dos carinhos.
Pois na história da minha vida,
entre a sombra e a luz do além,
foste a canção mais comovida
que Deus permitiu que eu cantasse também.
