Ladainha do Abandonado

Ó Deus dos esquecidos!

Ó Deus dos que despertam

e encontram apenas o vazio!

Ó Deus dos homens que amam

mais do que deviam amar!


Que palavra maldita saiu desta boca?

Que sílaba enferma?

Que verbo pútrido?

Que veneno invisível

corrompeu o jardim que eu cultivava?


Ai de mim!


Ai deste coração miserável

que depositou sua fé

numa criatura de carne e sonho!


Ai desta alma imprudente

que acreditou poder vencer

as armadilhas do destino!


Eu não gritei!

Ó céus, eu não gritei!


Não levantei a mão.

Não menti.

Não traí.

Não me escondi atrás

das máscaras dos hipócritas.


Mostrei-lhe minhas ruínas,

meus medos,

meus ossos,

meus abismos.


E mesmo assim ela partiu!

Partiu!


Ó Deus das madrugadas silenciosas,

partiu enquanto eu dormia!


Partiu enquanto o sono,

esse ladrão de vigilâncias,

mantinha fechados meus olhos!


Nem um adeus!

Nem uma sentença!

Nem sequer a acusação

que justificasse o suplício!


Acordei órfão.


Ó Deus!

Ó Deus dos órfãos do amor!


Acordei e encontrei apenas

a cama transformada em sepulcro,

o quarto convertido em mausoléu,

e o silêncio devorando as paredes.


Dizei-me!

Dizei-me qual foi meu crime!


Em qual tribunal fui julgado?

Qual foi a testemunha?

Qual foi o delito?

Pois recebi a pena,

mas ignoram-me a culpa!


Ó destino!

Ó verdugo invisível!


Por que arrancaste de meu peito

a flor que mal começava a florescer?


Por que permitiste

que uma única frase,

um único instante,

uma única fração da linguagem

sepultasse tantos sonhos?


Eis-me aqui.

Curvado.

Vencido.


Como um condenado

ajoelhado diante da eternidade.


Esperando que alguma estrela piedosa

me revele o motivo da queda.


Mas apenas escuto

o rumor dos vermes da saudade

roendo os restos

de um amor ainda vivo.


Ó Deus dos desgraçados!

Se esta é a minha sina,

que eu apodreça lentamente

sob o peso desta ausência,

mas ao menos concedei-me saber

por que fui abandonado.