Levastes minha paz,
levastes minha sanidade,
levastes a vontade de crescer,
levastes do meu olhar a claridade.
Sem alma, encaro o espelho
nesta madrugada erma e fria;
sem alma, minha vontade
jaz no calabouço da agonia.
Manco, caminho os segundos,
sem o rubro condão
que palpitava, ébrio de esperança,
dentro do meu coração.
Agora escorre pelos lábios
o fel amargo da verdade:
a alma fugiu deste cadáver
antes da própria mortalidade.
E resta apenas a matéria,
miserável, surda e sem razão,
apodrecendo lentamente
nos corredores da solidão.
