Vou-me embora.
Não me perguntes por quê.
Há caminhos que se fazem de silêncio,
e despedidas que se escrevem
com a tinta amarga da necessidade.
Vou-me embora.
Levo comigo o peso dos dias,
as promessas que não couberam no mundo,
e esse nome teu,
que a memória teima em guardar
como quem guarda uma relíquia
num altar abandonado.
Ver-te-ei chorar, talvez.
E esse pranto será meu castigo.
Porque não parto por falta de amor,
parto por excesso dele.
Há amores que pedem presença;
outros, mais tristes,
pedem distância.
Não voltarei.
Nem quando a saudade vier
bater à minha porta
com os dedos frios da madrugada.
Nem quando a lembrança
me mostrar teu rosto
entre as sombras do quarto.
Não voltarei.
Mas não confundas ausência com esquecimento.
O mar afasta-se da praia
a cada maré,
e nem por isso deixa de procurá-la.
Amar-te-ei de longe,
como se amam as estrelas:
sem tocá-las,
sem possuí-las,
sabendo apenas
que existem.
E quando os anos passarem,
e o tempo cobrir nossos passos
com sua poeira piedosa,
se alguém me perguntar
qual foi a mais bela dor
que carreguei na vida,
direi teu nome.
Então segue.
E deixa que eu siga também.
Porque vou-me embora para nunca mais.
Mas há uma coisa que nem a distância,
nem o tempo,
nem a morte ousarão levar:
o amor que te tive,
o amor que te tenho,
o amor que te terei
até o último silêncio do meu coração.