Elegia do Abandono

Volta ao túmulo profundo,

ó espectro de ilusões findas;

torna ao reino moribundo

das esperanças extintas.


Teu lugar não é na aurora,

nem no rumor dos viventes;

teu lugar é onde a escória

dos sonhos jaz para sempre.


Volta à cova, miserável!

Volta ao ventre da derrota!

Bebe o fel inesgotável

que a desventura te oferta.


Não percebes, desgraçado,

o destino que te guia?

Aos dezessete, enganado.

Aos quarenta, ainda o seguias.


Sempre a mesma antiga queda,

sempre a mesma cicatriz;

o coração faz promessa

e a realidade a desfaz.


Recolhe a máscara fria

que usavas antes de amar;

veste de novo a agonia

de quem nasceu para esperar.


E aguarda, como os defuntos,

o derradeiro suspiro;

já não te pertencem mundos,

nem os astros do infinito.


Quando os vermes pacientes

percorrerem tua carne,

leva a memória pungente

da lágrima que ainda arde.


Leva o último soluço,

a derradeira aflição,

o eco surdo e convulso

da tua devastação.


Pois teu amor foi morto,

outra vez sacrificado;

sem processo, sem conforto,

sem ter sequer sido escutado.


Foi lançado às trevas frias,

como um réu sem julgamento;

foi partido em agonia

pelas mãos do esquecimento.


E tu, curvado na sombra,

sem defesa ou proteção,

viste a noite pôr na tumba

o sol do teu coração.


Volta ao túmulo profundo,

onde repousa tua dor;

pois entre os vivos do mundo

não há guarida para o amor.