Não morri. Apenas me exilei.
Sob pedras frias me encerrei.
Fiz do silêncio a minha voz,
E do abandono, a minha foz.
Cerrei os sóis da juventude,
Vesti-me em sóbria quietude;
E ao coração, já sem alento,
Condenei-o ao esquecimento.
Mas quem sonhou jamais perece;
Sob cinzas dorme e permanece.
No fundo oculto da memória,
Respira ainda outra história.
E então surgiste. Não sei quando.
Talvez eu já viesse esperando.
Talvez trouxesses, sem saber,
A chave antiga do meu ser.
Não foste anjo nem redenção,
Nem promessa de salvação;
Foste apenas a claridade
Rompendo a minha antiguidade.
E a cela abriu-se, vagarosa;
Saiu de dentro uma rosa.
Não a flor tenra da ilusão,
Mas a esquecida combustão.
Agora habito um reino incerto,
Metade abismo, metade aberto;
Metade pedra, metade mar;
Metade medo de voltar.
Dentro de mim há dois senhores:
Um feito de antigos temores;
Outro de impulsos e fulgores,
Sedento ainda de ardores.
Um diz: "Protege-te da chama;
Toda esperança se derrama."
O outro: "Sem risco e sem ardor,
Não há destino, nem amor."
E eu, suspenso entre os dois,
Sou menos hoje do que fui depois;
Pois quem regressa ao que perdeu
Já não é quem desapareceu.
Quanta coragem, minha senhora,
Que ainda não fostes embora;
Que ainda ousais permanecer
Enquanto tento renascer.
Tocai-me a face. Sem piedade.
Mandai-me olhar a realidade.
Mostrai-me, além da antiga dor,
A face oculta do que sou.
Talvez a fênix, ao subir,
Não torne apenas a existir;
Talvez descubra, em seu voo,
Que nunca esteve sob o lodo.
E o homem que hoje se levanta,
Da própria ausência se agiganta.
Não nasce apenas da aflição:
Nasce do velho carcereiro,
Que abre, cansado e derradeiro,
As portas do próprio coração!
