Se eu precisar, eu te aviso.
Ou talvez não.
Talvez te deixe apenas um sinal
perdido entre as ruínas do caminho;
talvez uma luz acesa na janela,
talvez um gesto ausente de carinho.
Se eu precisar, vem me tirar
desta areia movediça e fria.
Meus olhos, que guardavam horizontes,
perderam o brilho na travessia.
Não foi a dor que os consumiu.
A dor é breve.
Foi a espera.
Foi o lento acumular dos dias,
a sucessão de promessas incompletas,
o peso das marés que não vieram.
Se eu precisar, talvez descubras.
Há naufrágios que começam em silêncio.
Há barcos que afundam sem alarde,
e há homens que se perdem pouco a pouco
antes que alguém perceba sua partida.
Se eu precisar, segura minha mão.
Não para me salvar do inevitável.
Mas para que, ao menos por um instante,
eu saiba que alguém viu
a noite chegar.