Eu não sou dado aos oráculos
nem às profecias do amanhã;
o presente já me basta
como vinho servido pela manhã.
Não sei se estou enfeitiçado,
ou se a febre tomou-me o juízo;
não sei se durmo em algum coma
ou se um espectro habita o meu riso.
Mas desejo-te, amor, o que vivo:
que cada instante te pareça sonho,
e que cada segundo maldito
arde inteiro — febril e risonho.
Que essa paz pousada em meu peito
permaneça, ainda que vás embora;
e que a fome de viver que sinto
vença os medos de toda hora.
Que alguém te olhe algum dia
como quem fita o céu estrelado;
e que o aroma da tua respiração
encha de vida um peito cansado.
Que duvides de tudo o que houve,
de tudo o que escreveste outrora;
pois todos os versos do mundo
são menores que o agora.
E que este hoje governe minh’alma,
mesmo sendo o “para sempre” distante;
porque foi teu amor quem mostrou-me
que até um tolo pode ser gigante.
E ainda que tardasses tanto,
como as chuvas depois da estiagem,
agradeço aos deuses do tempo
o maior presente da viagem:
você.
