Canta, ó Musa, a saudade que habita meu peito,
pois longe naveguei de meus antigos lares
e agora meu destino se prende, silencioso,
a esta terra vermelha, esta terra de brasa.
Onde está minha Ítaca?
Que porto me reclama?
Que praias guardam ainda os nomes dos meus mortos?
Que fogo me conduz entre caminhos diversos?
Pois vejo a grande Chapada ao romper da manhã,
e o sol, de dedos dourados, desperta os vales;
então meu coração, mais veloz que os cavalos,
retorna às velhas sombras que jamais abandonei.
Canta, sereia de voz mais doce que a aurora,
não para me perder nos abismos do mar,
mas para conduzir-me ao alto dos montes sagrados,
onde os deuses observam a sorte dos homens.
Alimenta-me o espírito com teu canto sereno,
pois sigo caminhando entre memórias dispersas,
embriagado de ausências e de futuras esperanças,
como um herói menor diante dos fios do destino.
Muitas vezes recordo aquela leve saia
dançando entre os ventos de um verão já distante;
e não encontro pranto, nem lamento profundo,
mas o encanto sutil das coisas que permanecem.
Contudo, há o temor que acompanha os viajantes:
perder a antiga trilha, esquecer as estrelas,
não reconhecer a voz que chama ao longe
desde o sertão azul dos morros da lembrança.
Assim caminho eu,
dividido entre duas pátrias:
aquela que me formou
e esta que me recebeu.
E já não sei dizer
se procuro retornar a Ítaca,
ou se busco aprender,
como Ulisses errante,
que o próprio coração
é a mais distante das viagens.
