Não procuro entender-te — e não me entendo;
Nem julgo a tua dor — nem me condeno;
Não ergo sobre ti o aço do aceno
Com que o homem vil apedreja o que é horrendo.
Não censuro teu ser, pois me desvendo
Feito um cadáver pútrido e pequeno,
Micróbio errante, amargo e subterrâneo,
No esgoto azul do Cosmos semifrênico.
Eu nada sou! Partícula mofada
Que a Química dos astros arremessa
À valsa espectral da carne envenenada!
Mas este rubro músculo, que pulsa,
Sabe que a Morte — a velha necrófaga — atravessa
O último segundo e tudo avulsa.
E o que deixei? Tesouros? Ouro? Império?
Não! Deixei meus espasmos e meus versos,
Minhas sílabas de húmus funerário,
Meus amores dispersos,
E lágrimas — viscosas, cancerosas —
Que irrigaram teu peito solitário,
Para que florescesse, entre as pedras medonhas,
A pobre flora trágica deste sertão ossário.
