Se eu pudesse...

Se eu pudesse gritar, gritaria —

e os becos ermos da cidade,

na febre úmida da noite,

saberiam teu nome em segredo.


Se eu pudesse, deixaria

todos os teus dias livres,

para que vivesses apenas

do que teu coração ama.


Se eu pudesse, apagaria

de tua alma as decepções antigas,

como quem apaga da vidraça

a lágrima pálida da chuva.


Se eu pudesse, encomendaria

as estrelas trêmulas do firmamento,

e as derramaria em teus cabelos

como um véu de luz e melancolia.


Se eu pudesse, traria ainda

os grãos vermelhos das areias de Marte,

os mares mortos da Lua,

e o silêncio das noites sem Deus.


E mesmo assim, amor,

não chegaria sequer perto

do imenso bem

que tua existência faz em mim.