Se eu pudesse gritar, gritaria —
e os becos ermos da cidade,
na febre úmida da noite,
saberiam teu nome em segredo.
Se eu pudesse, deixaria
todos os teus dias livres,
para que vivesses apenas
do que teu coração ama.
Se eu pudesse, apagaria
de tua alma as decepções antigas,
como quem apaga da vidraça
a lágrima pálida da chuva.
Se eu pudesse, encomendaria
as estrelas trêmulas do firmamento,
e as derramaria em teus cabelos
como um véu de luz e melancolia.
Se eu pudesse, traria ainda
os grãos vermelhos das areias de Marte,
os mares mortos da Lua,
e o silêncio das noites sem Deus.
E mesmo assim, amor,
não chegaria sequer perto
do imenso bem
que tua existência faz em mim.
