Reza aos Olhos de Cigana Oblíqua

Eu poderia fugir

antes que me visses nu;

eu poderia correr

antes que o encanto se desfizesse

como névoa sobre o sul.


Mas estou algemado ao desejo,

embriagado em teu sorriso,

qual Dom Quixote errante

lutando contra os próprios delírios.


Ó olhos de cigana,

oblíquos e dissimulados,

perscrutais meu passado

como um canário paciente

erguendo ninho entre escombros.


Ó caixeira viajante de Oz,

dai-me coragem bastante

para não perecer de mim mesmo

neste vendaval incessante.


Os moinhos tornarão a girar

sob ventos febris e dementes;

carregarão este sonho

pelos campos de terra árida,

para que um dia tuas lágrimas

adubem a querência

daquilo de que sempre fugiste.


Eu, que sou parvo.

Eu, que sou tolo.

Eu, que sou troglodita

devorador de sonhos e silêncios,


prostro-me diante de ti

como em reza antiga do norte;

acaricia minhas madeixas

nesta noite calma e profunda,

à beira deste rincão

onde até o abandono

parece rezar baixinho.