No alto desta escada estás tu,
e eu, cá debaixo, pobre do caminho,
vejo teu riso derramar-se leve
como luar escorrendo mansinho.
Subo degrau por degrau,
numa esperança sem descanso;
subo — e quanto mais me aproximo,
mais percebo que não te alcanço.
No alto daquele monte distante
mora o firmamento inteiro;
subo, subo contra o vento,
e continuo estrangeiro.
Eu poderia vestir disfarces,
fingir bravura, esconder o abismo,
enganar-te com minhas máscaras
e salvar-me de mim mesmo.
Mas pela primeira vez abro o peito
como quem abre a janela ao açoite;
e sei que o tiro será certeiro,
porque o amor nunca erra a noite.
Ainda assim, digo: que importa?
Do que vale a vida guardada,
se não for para perder-se inteira
nesta vertigem iluminada?
