Poema de Peito Aberto

 No alto desta escada estás tu,

e eu, cá debaixo, pobre do caminho,

vejo teu riso derramar-se leve

como luar escorrendo mansinho.


Subo degrau por degrau,

numa esperança sem descanso;

subo — e quanto mais me aproximo,

mais percebo que não te alcanço.


No alto daquele monte distante

mora o firmamento inteiro;

subo, subo contra o vento,

e continuo estrangeiro.


Eu poderia vestir disfarces,

fingir bravura, esconder o abismo,

enganar-te com minhas máscaras

e salvar-me de mim mesmo.


Mas pela primeira vez abro o peito

como quem abre a janela ao açoite;

e sei que o tiro será certeiro,

porque o amor nunca erra a noite.


Ainda assim, digo: que importa?

Do que vale a vida guardada,

se não for para perder-se inteira

nesta vertigem iluminada?