Pássaros e Galhos

Há em ti

qualquer liturgia alada

qualquer vertigem migratória

qualquer litofania celeste

que impede tuas veias

de aceitarem morada.


Teu espírito possui

a plumagem metafísica

das aves crepusculares

que dormem num galho

mas sonham noutro horizonte.


Eu não.


Fui talhado em madeira antiga.


Carrego no dorso

a vocação vegetal

das árvores condenadas

ao ofício silencioso

de sustentar partidas.


Enquanto teus olhos

despetalam auroras

os meus criam musgos.


Enquanto tua alma

mastiga distâncias

a minha rumina estações.


Tu tens o coração dos ventos:

não repousa —

atravessa.


Eu tenho o destino dos troncos:

não persigo —

permaneço.


E no entanto,


quando teu voo fatigado

derramou sombras sobre mim

minhas raízes ouviram

o rumor subterrâneo

das primaveras esquecidas.


Houve folhas.


Houve rios verdes

subindo pelas minhas artérias lenhosas.


Houve ninhos.


Houve até mesmo

um breve milagre botânico:

o inverno desaprendendo

a própria necrose.


Mas aprendi cedo

que pássaros não pertencem.


As aves carregam no peito

uma bússola ferida

que confunde abrigo

com horizonte.


Se permanecem demais, adoecem.

Se partem, sangram.


E assim atravessam o mundo:

bicando infinitos

como quem procura

na geografia dos céus

o formato impossível

da própria falta.


Por isso não te peço raízes.


O galho que deseja possuir o voo

transforma-se em lenha.


E toda lenha

arde de ciúme

antes de virar cinza.


Vai.


Leva contigo

as pequenas primaveras

que tua presença deixou dependuradas

entre minhas ferrugens emocionais.


Leva o pólen.

Leva os crepúsculos.

Leva até mesmo

os pedaços de céu

que esqueceste nos meus ombros.


Ficarei aqui.


Não por virtude.

Nem por martírio.


Mas porque certas árvores

aprendem tardiamente

que amar um pássaro

é aceitar ser apenas

o intervalo verde

entre dois abismos azuis.