Não és tu

Não és tu — sou eu quem, no teu riso,
Julga encontrar a paz que não possuo;
E em tua pele, tépido paraíso,
Forja o repouso que jamais concluo.

Não és tu — sou eu quem, no teu olhar,
Compõe futuros de fulgor incerto;
E em teus cabelos, lânguido ondular,
Sonha opulências de um querer deserto.

Não és tu — sou eu quem, no teu aroma,
Busca nutrir a própria carência;
E em tua voz, qual lâmpada que assoma,
Ergue um farol na noite da ausência.

Sou eu — somente eu — que te configuro:
Frágil estátua de ideal profundo;
E em ti projeto, em mármore impuro,
Tudo o que em mim não coube neste mundo.