Olha — escuta o medo,
andando passo a passo,
assombrando a minha vida
em náusea e embaraço.
Ele chega —
e perdura atrás da porta,
por entre as ceroulas
me imobiliza e me entorta.
Força-me a permanecer,
inerte, sem reação,
à espera da vida inteira
passar sem redenção.
Ele vem no sonho escuro,
no instante em que te encontro;
nos teus lábios cesso o antro
e vislumbro um claro ponto.
Surge, então, no céu turvado
um lampejo de esperança —
mas o medo logo sopra
e desfaz toda a bonança.
Ele assobia aos meus ouvidos
que tudo é pura ilusão,
que devo ficar imóvel,
preso à mesma condição:
suportando, dia a dia,
cem chibatadas sem fim,
por ser, outrora, na vida,
um inconsequente assim.
