Não há um dia — ou talvez haja,
mas eu já não saiba distingui-lo —
em que eu não rogue baixinho
à mecânica inútil do destino
o direito impossível
de tocar teus lábios.
Porque tu não és mulher apenas.
És uma espécie de febre lúcida,
uma interrupção do mundo,
o intervalo obscuro
entre aquilo que penso
e aquilo que me destrói.
Não há um dia
em que eu não deseje tua tez
como quem deseja regressar
a uma pátria que nunca existiu.
E no entanto —
olha como tudo é ridículo em mim —
sou hesitante,
melancólico,
destroçado por excessos de consciência,
um homem que pensa tanto
que às vezes esquece de viver.
Mas quando te imagino,
ah, quando te imagino,
há qualquer coisa de marítimo e elétrico
percorrendo meus nervos,
como se o universo inteiro
tivesse decidido respirar
dentro deste corpo fatigado.
E eu, que sempre fui tão incompleto,
tão provisório,
tão corredor vazio ao fim da tarde,
encontro em ti
uma espécie absurda de morada.
Não uma casa.
As casas apodrecem.
Mas um lugar metafísico
onde minhas ruínas descansam.
E confesso —
com o constrangimento dos que ainda sentem —
que poderia abandonar agora
esta vida terrena, burocrática, triste,
os relógios, os papéis, os dias úteis,
e dissolver-me sem medo
nessa vertigem luminosa
que tua existência derrama
sobre cada átomo exausto
deste meu veículo estelar.
