Eu sou o que sou

Sou aquilo que me resta,
sem verniz, sem tradução;
queres podar minhas raízes
pra caber na tua mão?

Eu sou o que sou, apenas —
vento torto, imperfeição.
Vais tolher minha verdade
pra salvar tua ilusão?

Se meu jeito te incomoda,
se meu caos te causa dor,
não me peças outra pele
nem outro modo de amor.

Porque fingir é sepultura
para quem nasceu inteiro;
antes só com meus abismos
que amado por um roteiro.

Deixa-me ser tempestade,
deixa-me ser contradição;
há pássaros que morrem tristes
quando presos pela mão.