Eu não temo o amanhã,
nem o depois de amanhã;
hoje consumi-me inteiro,
sem deixar restos ao “se”.
Não me importa se não medes
o peso do que em mim floresce;
há sentimentos que existem
não para o mundo — mas porque existem.
Não me importa se descrês
destes versos que te escrevo;
não nasceram para convencer-te,
mas porque meu peito transborda silêncio.
Quero apenas a gota do orvalho
para esta sede que me vence;
ver-te — molécula de oxigênio —
presa no templo da ausência.
Hoje a Terra, mais uma vez,
girou sobre o próprio destino;
e meus átomos, pobres partículas
desta ficção que chamamos vida,
clamaram por tua presença
mesmo entre lágrimas e tropeços;
porque até a imperfeição, contigo,
tem a doçura dos regressos.
É por isso que a paz me invade,
como invade o mar ao porto,
quando o velho Odisseu, cansado,
avista enfim sua Ítaca.
E nos braços de sua amada,
já sem guerra, sem mar, sem dano,
consome em si toda a distância
e nada deixa para o amanhã.
