Corcel negro das águas turvas,
fantasma errante dos alagadiços,
que entre juncais e pútridos feitiços
rasgava a noite em cóleras e curvas.
Ser incompreensível, sombra fria,
tênue presença a encher-me o vazio,
como se o próprio abismo, em desvario,
fizesse morada em minha alma sombria.
Olha-me assim — persiste e me devora —
como fazias junto ao espelho antigo,
quando eu, febril, fitava teu castigo
na luz espectral que teu semblante aflora.
Nutres as longas tranças da luxúria
fitando meu cadáver reclinado,
qual réu à espera do final chamado
sob o silêncio atroz da noite escúria.
Nutre-me então com teu cruel deleite,
com tuas células de febre e cio;
arranca deste peito o fel sombrio
que fiz tesouro e converti em azeite.
Tira-me às costelas a peçonha antiga,
o mal que amei por vã preciosidade;
e afoga em tua brutal maternidade
a chaga mortal que em minha carne briga.
