Sofro como um parvo
debaixo de uma mesa,
contando os segundos
para sentir-me em defesa.
Sofro como um tolo,
ignóbil ser que em si
constrói falácias tantas
e crê mais nelas que em si.
A palavra faz curva ao vento,
e a cada noite a solidão
corrói, qual ácido lento,
as vigas do coração.
E eu, náufrago de mim mesmo,
sem porto, vela ou farol,
persigo espectros no nevoeiro
como quem busca o próprio sol.
Mas o sol que busco é antigo,
perdeu-se em qualquer estação;
talvez repouse escondido
nos escombros da ilusão.
E assim caminho, hesitante,
entre o que fui e o que serei,
carregando este fantasma
que eu mesmo ressuscitei.
Pois há no peito um exilado
que jamais se conformou;
enterrado sob os anos,
mas nunca se sepultou.
E é ele quem bate à porta
quando a madrugada vem,
perguntando em voz tão baixa:
— Quem abandonaste, afinal?
O sonho que tinhas de ti,
ou a ti mesmo também?
