Sorte

Eu, o pestilento ser,
colônia de miasmas e culpas fermentadas,
organismo em falência moral progressiva,
subproduto da carne que pensa e apodrece.

Ela — nereida do Pantanal, 
A exceção que o caos esqueceu de corromper,
a variável improvável no cálculo da minha ruína,
a sorte que, por erro estatístico, me atravessa.

Enquanto meu sangue coagula em remorsos,
ela flui — límpida —
como se desconhecesse a gravidade dos abismos
onde eu, há eras, me decomponho.

Sou o peso,
a matéria densa que na balança de Maat se arrasta,
o erro que insiste em persistir.

Ela é o desvio luminoso,
a improbabilidade que desafia a entropia,
a centelha que, por um segundo,
ilude este cadáver pensante
com a hipótese absurda de redenção.

Mas sei — e nisso reside minha lucidez enferma —:
não há cura para o que em mim se decompõe.

Ainda assim,
se o destino — essa engrenagem irônica —
me concedeu tocá-la no fluxo do samsara,
aceito, febril, esta contradição:

ser o pestilento…
e, por um instante,
acreditar-me digno da sorte