Contempla a ilha de São Domingos,
de um primor quase ritual,
joia ardente das Antilhas,
cicatriz do mundo colonial;
ainda fuma o sacrifício
de inocentes — mal sem igual.
Observa — se tens coragem,
sem verter sequer o pranto —
dois tronos erguidos frios
sobre ossadas, no quebranto,
dos senhores depostos vivos:
recompensa de L’Ouverture em canto.
Olha os corpos negros, firmes,
que tomaram o destino à mão,
rasgaram o curso imposto,
refundaram a própria nação;
fizeram da antiga primazia
sublevação e insurreição.
É a ira funda da terra,
é a guerra civil febril,
é o grito dos que não aceitam,
nem hoje — nem nunca — o perfil
de um mundo que nega o instante
em que a liberdade existiu no Haiti, sutil.
Escondam nomes, silenciem,
encerrem provas ao fundo,
trancafiem Thomas Lindley e seus relatos,
calem a memória do mundo;
pois há verdades perigosas
que não cabem no poder profundo.
Mas ecoa além do medo:
Simón Bolívar encontrou refúgio ali,
sob as mãos de Alexandre Pétion —
onde a chama não se extingui;
Francisco de Miranda atravessa o Atlântico,
e a revolta insiste em seguir.
Carabaño ergue seus homens,
Cartagena sente o chão;
Toledo, Herrera e Bellegarde
ferem o jugo em combustão;
Mina sonha outro México —
e a América aprende insurreição.
Mas no Brasil, entre muros,
o medo aprendeu a falar:
“morram os brancos e os caiados” —
eco que insiste em voltar;
São Domingos — grande espectro —
que o futuro quis sepultar.
E o país do “vir a ser”,
curvado em gesto mudo e vão,
ajoelha diante do tempo
que lhe escapa pelas mãos;
beija, em segredo tardio,
o primeiro imperador — Dessalines — na escuridão.
