Rosa de fogo

Vento que vem — não bate, não chama —

entra-me em carne, levanta-me a chama,

gira na boca funda da noite:

é teu passo vindo,

teu nome que açoita.


Filha de rua, de riso e de faca,

dona de canto que fere e não fraca,

dona da encruza onde o mundo se embaralha —

quem treme se perde,

quem sente não falha.


No espelho aceso, de névoa toldado,

teu canto desperta o que jaz enterrado;

e como Iemanjá, em giro encantado,

leva-me ao fundo,

de mim desatado.


Rosa de fogo, de ferro e de cheiro,

brasa que dança no chão do terreiro,

não és promessa — és corte primeiro,

porta de carne,

de sopro certeiro.


Se tu me cruzas — não peço guarida,

bebo-te o risco na boca da vida;

quem prova da noite não torna medida:

ou vira palavra,

ou chama erguida.