Por piedade

 Por cauta mão me aparto do querer,

Que à dama, inda que cara, não me atrevo;

Nem mais a sorte ouso ali perder,

Que em vão três luas fui, vazio e servo.


Segui marés que o vento não quis dar,

Rastreei o nado que jamais se fez;

Esperei o nada em lento penar,

Sentindo ausências frias, nuas de vez.


Não quero ao peito aceso mais tormento,

Que, se ela anuir, será por piedade;

Não por desejo ardente ou sentimento.


E não mais negarei sua verdade:

Que é sábia a Musa, errada em seu intento,

E eu, tardio, aprendo essa verdade.