Líquido anestésico
que em minhas veias escorre
— silente —
purifica esta existência
ou apenas a adormece?
Filtraste o mal
que ensaiei cometer?
Filtraste o impulso
que governa meus gestos
antes mesmo de eu ser?
Meu rubro sanguíneo,
alimento do glomérulo,
deságua na película nefrosa
— membrana fina entre culpa e descarte —
e ali decanta
a pestilência que insisto em chamar de eu.
Que todo desejo vão,
todo pecado reiterado,
todo gosto amargo
que o corpo recusou absorver
seja expelido —
não como redenção,
mas como resto.
E, ainda assim,
se algo em mim permanecer,
que baste
para sustentar
esta humilde vida.
