Toma! — e sente o pus do teu merecimento —
Colhe o resíduo vil do que te fiz;
Dá-me esse invólucro torpe e sonolento,
Esse hálito de dor que se diz “feliz”.
Narra-me, pois, — com lábios de veneno —
Teus doces erros, mórbidos, fatais;
Mentiras — larvas em tecido ameno —
Ruminam-se em teus sonhos artificiais.
E eu, espectro de um ideal putrefato,
Finjo crer na ilusão que concebi;
Habito o nada, um cárcere abstrato,
De um mundo morto que eu mesmo pari.
Sinto a existência em fluxos de exsudato,
Escorrer fria entre os dedos meus;
Vendes teu corpo, em cálculo exato,
A um vício antigo — mercado dos ateus.
Toma! — e leva o óbolo do teu sorriso,
Leva o tremor, a náusea, o teu valor;
Leva essa carne, pálido paraíso,
Que apodrece sob a lógica do amor.
E jaz, por fim, na orgânica estrutura,
O ser reduzido à cifra espectral:
Carne em consumo, trágica fatura,
No vasto oceano patriarcal.
