Arruda

Teu sorriso cultiva
a paz que em mim se anuncia,
sereno, toco mais um
dia claro que principia.

Embriago-me em teu cheiro,
néctar doce de jataí,
e algo em mim se eleva,
como um sopro que não vi.

Tua essência percorre
cada átomo do meu ser,
e eu me pergunto em silêncio:
— será isso o viver?

Plenitude? Não sei bem.
Confesso: nunca aprendi.
Talvez cheguei em Pasárgada,
ou do rei me aproximei aqui.

Sinto o peso invisível
de tuas moléculas em mim,
que dançam junto às minhas
num encontro sem fim.

E na fricção dos desejos,
que o corpo insiste em dizer,
mergulho no teu abismo,
no âmago do teu ser.

Mas há em ti mais que o toque,
mais que o afeto que seduz:
és arruda em meu caminho,
erva antiga, força e luz.

Que afasta os maus presságios,
que purifica o ar em redor,
teu nome é reza no escuro,
teu corpo, um campo maior.

Se o mundo insiste em ruínas,
se a sorte vacila, crua,
carrego em mim teu encanto —
teu feitiço verde: arruda.