Não fujas, não — que eu não te persigo;
nem finjas gesto que não é teu.
Nunca abriste a porta do abrigo,
nunca disseste “fica comigo”,
nem culpa alguma nasceu em ti — nasceu em mim, que fui eu.
Passou a febre que em mim ardia,
como passa o vento no mar;
dissolveu-se a doce fantasia
que fazia da noite um dia
e do teu vulto um altar.
E ficou — pobre e silenciosa —
uma vontade sem voz, sem pressa:
estar contigo, coisa singela e formosa,
sem promessa ambiciosa,
sem esperança que confessa.
Sinto tua falta, e o digo ao vento,
Sinto tua falta, e o digo ao céu,
Sinto tua falta — e no pensamento
teu nome é leve tormento
que não se aparta do peito meu.
Não peses os passos que dás na estrada,
não culpes o gesto ou o olhar;
tua consciência é clara e alada,
tua alma não deve nada
ao que em mim quis sonhar.
Se houve sombra na tua alegria,
se houve silêncio na tua flor,
foi meu descompasso que ali jazia,
estorvo triste que sufocaria
teu simples gesto de amor.
Sinto tua falta, e é só saudade,
Sinto tua falta, doce e igual,
Sinto tua falta — e a eternidade
cabe inteira nesta verdade
tão breve e tão mortal.
Não fujas, não — segue teu caminho;
não finjas sorriso por mim.
Nunca abriste a porta do ninho,
e eu, pobre errante sozinho,
aprendi que amar é assim.
Pois passou a febre, calou-se a chama,
e a ilusão fez-se pó no ar;
mas ficou, como quem não reclama,
a vontade — simples e humana —
de apenas contigo estar.
