Ó doce Orfeu, senhor dos vãos encantos,
Não tens piedade deste triste humano?
Por que me guiaste, em passo tão insano,
À musa errada entre estivais espantos?
Se em sonho a vi — razão de meus quebrantos —
Por que inflamar-me o peito soberano?
Que culpa tem meu ser, tão frágil e profano,
Para pagar com lágrimas e prantos?
Agora jaz meu orgulho sepultado,
No túmulo frio de um vão desejo;
Pois ela, que meu peito tem turbado,
Rouba-me o sono, o alento e o ensejo.
Dize, Orfeu: por que tal fado ordenado,
Se amar em sonho foi meu só despejo?