Seguro-me — e vou, tão vagamente,
como quem teme o próprio coração;
por fora, calmo e quase indiferente,
por dentro, em fogo, arde a paixão.
Disfarço o gesto, apago a escrita,
que ousou dizer-te o que senti;
e espero, em ânsia nunca dita,
que venhas tu lembrar-te de mim aqui.
Quem me dera — num sopro leve —
sentir-te o aroma dos cabelos teus;
roubar ao tempo o instante breve
em que te encontro… e me perco nos seus.
E assim, segundo após segundo,
vou-me ocultando de mim mesmo, enfim;
fujo do amor que é meu mundo,
e que insiste em fazer-se em mim.
Desvio os passos, nego a vontade,
castigo em mim o que é só teu;
mas cresce, em dor e em saudade,
o doce erro de ser só teu.
