Ode a Calipso

Não sei se és forma vã, sonho ou quimera,

Se és tênue engano ou lâmpada tardia,

Ou se és, na voz do tempo que delira,

Notícia falsa à dor que me inspira.


Contemplo os olhos teus — e a pele austera —

Sem nunca ousar tocá-la, e, em fantasia,

Creio ver, da celeste hierarquia,

Um anjo em queda à esfera mesmo que tardia.


De mim me envergonho — e temo o intento

De, em ti pensando, ousar-me aproximar;

Que em tal desejo habita o desalento.


Deixa-me, pois, em sonho te guardar,

E em vão querer, sem corpo, o teu momento,

Qual peregrino à luz de um só olhar.