Não sei se és forma vã, sonho ou quimera,
Se és tênue engano ou lâmpada tardia,
Ou se és, na voz do tempo que delira,
Notícia falsa à dor que me inspira.
Contemplo os olhos teus — e a pele austera —
Sem nunca ousar tocá-la, e, em fantasia,
Creio ver, da celeste hierarquia,
Um anjo em queda à esfera mesmo que tardia.
De mim me envergonho — e temo o intento
De, em ti pensando, ousar-me aproximar;
Que em tal desejo habita o desalento.
Deixa-me, pois, em sonho te guardar,
E em vão querer, sem corpo, o teu momento,
Qual peregrino à luz de um só olhar.
