Ninfa Soberana

De ti estou, Senhora, assaz tomado,
que em teus olhos arde um lume ardente;
Calipso és tu, de gesto prepotente,
em cuja rede o livre é cativado.

Doce engano, em doce mal formado,
que faz da vida um sonho inconsistente;
pois quanto mais me entrego docemente,
mais me vejo em teu laço aprisionado.

Que força é esta, ó Ninfa soberana,
que me desvia de meu próprio norte,
e a teu querer inclina a sorte humana?

Nereida és tu, que, com semblante forte,
Medusa fazes, se a paixão te emana,
trocando vida em dor, e dor em morte.

E se, sem nau, por mares vou perdido,
e se em tormentas busco algum abrigo,
é teu o porto extremo e perseguido;

que em teu cantar, tão doce e tão antigo,
me prendo, qual em fado já cumprido,
e em teu laço consinto o meu perigo.