Flor de Laranjeira

Pobre coração —
condenado por te querer;
louçã delírio que, em noite faceira,
veio, certeiro, ferir sem temer
este pestilento moribundo
que insiste, teimoso, em viver.

Pobre de mim,
reflexo turvo e sumido
neste gélido espelho da vida;
nele me busco perdido
e, na névoa do sonho tardio,
imagino-me ainda contigo.

Ó flor de laranjeira,
fruta do lobo — gueixa festeira!
Doce miragem que embriaga
o peito de quem te espera.

Pobre deste ser
condenado por te conhecer,
sentenciado ao silêncio e ao abandono,
como réu sem direito a dizer
que apenas amou sem medida
e por isso aprende a sofrer.

Chamam-me louco,
fugitivo do divã,
como se amar fosse doença
ou febre de um pobre sultã;
mas quem dera à razão soberba
compreender o que o peito não dá.

Pobre destino
que me cerca e me espera:
uma estrada de passos solitários,
uma dor que comigo impera.
Choro contigo, doce ausência,
dor que o mundo ignora e tolera.

Ó flor de laranjeira,
fruta do lobo — gueixa festeira!
Se és sonho, não me despertes;
se és veneno, que seja a minha primavera.